quinta-feira, 11 de setembro de 2014

sermão da sorte

Ela é deus,
Ninguém mais diga nada!
Você viu que
o que não chega
a ser literatura
mas que compõe este sermão.

Relendo cada verso no fim,
ainda restarão argumentos desconexos,
insetos incômodos, amores mal vestidos
barbeadores elétricos, monstros alados
e seguros de vida vencidos.

É a vida: acertada e errada com a sorte,

enquanto imploramos e roubamos
e pegamos emprestado.
e nunca, nunca vemos de volta
vontades descarregadas a mil megabytes:
nem mesmo vou falar delas em vão.

Apenas algumas palavras
e o radical de seu nome
restam em minha memória.

crisálida
crisma
cristal
cristo
crista
CrisPenoni



quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Inspiração

Então agora entre nós
Vai ser desse jeito:
você vem, me aceita,
com todos os defeitos
e sai, muda.

Você foi meu verbo
habitou minha carne
até ao pus, e mesmo
sem poder falar
me deixa, surdo.

O amor vai superar tudo
os santos só não avisaram
da tua partida, e eu,
sem paciência pra esperar
me corto, cego.

Seus beijos ainda
queimam minha boca
e o verbo voltará
a circular meu corpo e
me proverá, amargo.

Porque é assim entre
eu e minha inspiração:
ela me faz feliz, me cria,
batiza meu filho mais novo e
me deixa, apagado.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

seca

eu sou um
você é vários
ele é tudo
nós somos nada.

e apesar disso
temos o mundo
pelas costas
e dois lados
de um caminho
de obras inacabadas.

tudo seca:
tinta seca,
planta seca,
a fonte seca...

mas o lago
em que ponho
os pés agora
está coberto
de pensamentos
amarelos
brancos
verdes
e roxos.

até mesmo
os pensamentos
secam.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

presença canina

porque todas as bombas
resolveram cair
em minha cabeça
hoje de manhã.

porque o sol queima
todas as minhas fraturas
expostas ao vento

porque me deram
um lenço umedecido
para limpar as partes
ocultas de minha face

mas eu tenho um cão.
vou com ele pra varanda
saio e sigo por aí

juntos reviramos
as latas de lixo
e os jornais velhos
do centro da cidade

mas minha cabeça explode
como num campo de guerra.
é mesmo assim.

os fragmentos vão parar
no lixo, nas mesmas latas
que reviramos nas noites
insonia e solidão.


Alice in Chains (1995) - fonte: Google Images