segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

incêndio no museu

"Penetra surdamente no reino das palavras"
                                  (Carlos Drummond de Andrade)

Pois seu castelo agora em brasa
voa em cinzas alfabetizadas,
em letras espirais.

A estação da luz
se apaga em chamas
muda, a paisagem se confunde,

Tom de multi Cidade o'scura
cinza como as cinzas
dos poetas mortos
em seus delitos
em suas esquinas.

O outrora prazer
mistura-se com uma dor,
minha, sua
a dor de uma língua-mãe,
seja ela
em qual português for.




Foto tirada na região central mostra a fumaça provocada pelo incêndio (Foto: Luciana Rossetto/G1)





segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Voagem

Presente bom seria mesmo,
Passar agora diante de teus olhos.
O caminho com amigos ao pôr do sol
Não seria paisagem, assim, inútil.

Apreensivo, tenho agora
O barulho do mar como castigo,
Mas é ele que me consola, do alto.

Não sei voar.
Jogo-me contra o que então?
Ao ventre? Ao açoite? De novo ao mar?

Hoje falam mal de você pra mim,
Alguém, por escolha, sendo individual.
Seja lá como for, venha se despedir.

Ou nem isto.
Deixa.
Ainda estou voando.
Deixa.

Se existe alma,
Se há outra vez para pesar
Não será má ideia ver o chão,

Como se fosse possível parar
A consciência no instante
Denominado qualquer.

sábado, 12 de setembro de 2015

Anexo 3 - Naturezas

Oro, por vontade própria
ao saber filosófico das suas origens,
a essa deusa do prazer,
essa dona ruim,
os olhos azuis como
o resplendor solar, serena
jogando dominó a cada verso,
de um jeito que não acaba mais.

No meio dia branco de sol
uma voz embala
esse povo todo,
esse sonho todo:
Culpados.

E de pensar que de repente
na natureza de Edvard Munch,
eram apenas homens menina,
eles metem medo menina,
eles querem se mostrar,
mas ninguém quer
saber de ver menina.

Depois, a gente vai desabar
com os homens sobre
esse teto tranquilo,
onde andam pombas.

Eu também estou apreensivo,
busco a mão no ponto,
seguro o jogo,
palpito entre pinheiros,
entre minhas entranhas
e sempre ressoa a mesma coisa:
tinta.

Não há nada
fundamentalmente errado
com meus dentes, meus olhos.
o que há é o ruído
de gente chorando à consciência
de quem acreditou no amor,


ATENÇÃO! ATENÇÃO!


muito obrigado.




quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Crise

O congresso em crise,
A Petrobrás em crise,
Meu pulmão em crise
há crise na Europa toda,

Crise financeira,
Crise dos quarenta,
Crise na Igreja,

Poetas em crise de versos Escolas em crise de verbas

Crise na esquerda,
Crise na direita,
"Mas tu serás atingido
pela crise"

Crise!

Crise!

Crise!

Cristo...

terça-feira, 7 de julho de 2015

Satélite

Sozinho um satélite
Entre carbonos
E luxos espaciais
Vermelhas luzes
Violetas luzes.

Entre horóscopos
De figurinhas
Carimbadas
"Se quiser voar!
(...) Pro sol, identidade".

Fora esta a desordem.
Fora este o cartel
Mantido por
Leis gravitacionais.
Vagar no breu
Espalhando nuvens
De lixo trópico.

O Câncer
Jaz assim, frio
Nosso satélite.
Orbitando plasmas
Infinitas perdas de massa.
Gases múltiplos
Vindos do oceano,
Dentro da estrela
O brilho rotineiro
da supernova.

As ascensões: 
Saturno em Escorpião.
Urgente como costuma ser
abaixo do Equador.

Quantos meridianos
serão gastos até que
a cerca atinja a cintura?

De repente
tudo faz sentido:
Meteoritos,
Estrelas, cometas e
outras engarrafamentos
espaço-temporais.

Mais um salto
no hiperespaço,
Já vamos pra casa...

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Epílogo 1 - Perdas no caminho

Pior que perder um poema todo é
perder uma vida toda pra virar poeta
pra depois ver que perdeu toda
uma vida por ter virado poeta.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Anexo 2 - Inimizades

Ai, o poema é um dos meus inimigos, 
que me ungem a cabeça
com o que era poesia.

Como o amor que primeiro
em silencio dorme.
Como uma visita tardia
Que pede entrada em meus erros. 

Sou sujeito. Fui fabricado. Morri.
Enterrado todo metade,
toda hora que me torno
tudo o que consumido está
só me dão, dos dois,
a geleira azul da solidão
e a morna espera
pelas pombas.

Sou poeta, meus camaradas também o são.
Parte inofensiva do mundo.
Vamos lotar o sistema nervoso central.
Nem vou falar nos sentimentos deles.
Estamos aparados sem nenhuma discussão.
Porque, agora, vemos como máquinas.

E diretamente das máquinas
vem o segredo das palavras.
E lá estão: loucas.

O mais importante é
que todos nós estamos aí.

Na próxima deverá haver
uma versão completa
do que deu para contar.
Pelo menos vinte prestações
de puro sofrimento.

Estamos todos prontos
Você, eles, elas e eu.
Eu continuo sujeito e sou forte:
meu lado esquerdo fere.
...
Melhor se recompor.
Não há meio triste
De estar tanto melhor.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

noa boa

noa boa na beira da praia
aperta bem pra acolchoar
pra esticar na areia
e só ouvir o mar

o barulho do mar
como as pessoas
em dias de feira
vem comprar, vem comprar

de bobeira na beira do mar
testemunhando os maluco
surfar na crista de galo da crista da onda
brilhando o cristal de ponta em ponta

chega de ir direto ao ponto
o assunto é remendar...

Pra fechar, queria apenas
repassar a esse povo cansado
quatro poemas que conheço tão bem,
Eu sou o mar, soa o poema.

Noa boa na beira do mar
enrolo poemas pra engarrafar.

Aceita-o como ele é:
qualquer sensação muito natural
desde que seja uma charada.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Anexo 1 - Mentiras

Tudo mentira, desde o início
Seu palavrório eloquente
suporta leis próprias

São sempre telefonemas urgentes
Sobre missões assassinas
Jogos de poder nas esquinas
telas de reality-shows inocentes

o poeta da sarjeta 
"guenta as treta"
e tem mais:

na última autópsia
de seu falido cérebro
encontraram sua alma
finalmente submissa
a doenças mentais crônicas.

O problema com suas histórias
era que as verdadeiras
eram entediantes...
E as mais interessantes
eram pura mentira....

domingo, 31 de maio de 2015

Nota de Falecimento

Com pesar
Comunicamos
Que por motivo de força maior
Morre hoje o absurdo,
A indecência,
O abuso.

Após passagem complicada
Pela U.T.I. pública
Morreu.

De falência múltipla
De signos e 
De dispositivos,
Poças d'água e cenários
Do palco-mundo.
Mais mudo
Mais Raimundo
Mais rima,
muito menos
solução...


quarta-feira, 8 de abril de 2015

Andréa

Poderia dizer inúmeras
injúrias em teu nome.

Poderias escrevê-las em
muros, calçadas, estrelas.

Poderia deixar dois versos
sobre sua cama de manhã.

E maldizer suas intenções
sem carregar sua imagem.

Nada poderia me parar
nem senso de censura.

Na clausura de simples verbos
versar-te bela, amável criatura.

Como o salmista louva
o orvalho nosso de cada dia.

Como as enciclopédias se esforçam
para descrever cada verbete.

Ou pensamentos que de repente
confundem os sentidos.

Paralisa ante toda a mística
que seu nome compensa.

Depois, Silêncio.
Depois, Silencio.

Mas silencio, como o prenúncio
das maiores tempestades.

Silencio como o ruído dos
carros silencia aos poucos a noite.

E poderia deixar mais dois versos
sobre sua cama de manhã.

E silenciar ante toda a mística
que seu nome compensa.

segunda-feira, 16 de março de 2015

terço em terço

Testa o terço.
Pra mim, réstia
E cédula, claro.

Só dúvida alguma
Nome no SPC
Sorte-à-sorte.

Uma dívida dobra:
Os verbos ignorados
Esquecidos quanto ignorados

Terço do churrasco.
Sobra da cana.
Touca de lã.

Além do anzol,
há enxada, caneta
Serrote martelo e papel

Se há consolo,
Não vem da praia:
Nem lugar nenhum.

Terço em terço
Regrado, tem caixa
Desses de supermercado.

Sempre em rente.
Cabelos médio-curtos
Versos médio-curtos

Uma música social
Redes na geladeira
Fluxo contínuo sangra.

Enfim, no cemitério
Do bairro Bonfim
Noivas estão loucas.

Enterrado todo sonho.
Falida a padaria
Consolo há: bar.

Terço ao terço
Quinta até sesta.
Há subalternos verbos.

Doze mil parágrafos
Fonte doze: ABNT
Não querem nada.

Vem só desmoronar
A relação entre
Pães franceses e ventiladores...

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

madrugada

A madrugada floresceu 
Você vai me assassinar.

Tem horas que você trabalha,
e assiste TV enfiando porcaria
ácida na flora.

Finalmente um dia
há flores sangrando
em duas mãos hediondas
sujas de tintas explícitas,
fios e pomares.

À noitinha o retorno
à mesma coisa, casa.
Você lembra de um,
e esquece do outro,
outra coisa, tinta.
O vermelho,
"a cor do guerreiro".

Sempre gostei de flores
ainda mais de armas
facas,bisturis, revólveres
e da minha dança do vento
nu,
o ventre da noite ...

A madrugada já rompeu
Você vai me acorrentar.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

trinta e tres

"Diga trinta e três"
Inspira-expira,
Trinta e três.

Mais o quê?

Devia amar mais
Devia viver mais
Devia falar menos
E digitar menos.

Devia dever menos.

Um terço do cento:
Completo.
Cem porcento dúvida:
Completo.

Cê lembra o último sorriso,
do último abraço mais apertado
Na hora do adeus?

E há gente que
Concerta
Mil valsas.
Sem adiantar
De nada.

Mas,
E os trinta e três?
Jesus morreu e viveu
aos trinta e três.
Nada demais.
Um terço de noventa
e nove.
Metade de sessenta
e seis.
A raiz quadrada de
um mil e oitenta e nove.


















sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

post mortem

um post
composta
tal mensagem:

quem viver
além do imposto
verá também o poste,
comporte-se.

costelas em postas
na esquina.
a fratura
disposta
contém
forca
afinal.

argumento:

bem posto
bem morto

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Cápsulas

Receita médica:
uma cápsula de manhã.
Comprimidos
tomados com café fraco.

Uma caminhada rápida
até a próxima estação.
Melhor se fizesse frio,
Tudo menos calor.
Internamente mal,
quente de novo
todo dia.

Mas agora a cápsula
que engole gente,
sem café, sem nada.
Comprimida e
chacoalhada como se
prepara caipirinha,
uma batida braba.

E a cada ruído,
verde-amarelo-vermelho
PARE-ATENÇÃO-SIGA
Há uma sensação de ressaca
e encoxadas involuntárias
despercebidas, pedidos
sem-vergonhas
de desculpas.

Quarenta minutos
depois: efeito só colateral.
E a cápsula vomita gente
no centro da capital.




move BH